organização dos/as militantes anarquistas se faz presente no atual contexto nacional e internacional. A queda do muro de Berlim e do modelo soviético colocou em decadência o modelo de organização e a estratégia da esquerda autoritária. Os partidos leninistas entraram em decadência e os anseios revolucionários se voltaram para as idéias libertárias. A crítica anarquista à ditadura do proletariado, ao modelo de organização autoritário, à via estatal de mudança social, têm um espaço a ocupar na interpretação da falência dos regimes do leste europeu. Por outro lado, as lutas mundiais contra a globalização tiveram na ação direta a sua principal arma e o controle dos partidos autoritários sobre as lutas foi posta em risco. Desta forma, a propaganda de um tipo de luta direta expandiu-se por todo o globo.No contexto brasileiro, a esperança criada na democracia, depois de 20 anos de ditadura, foi frustrada pois a experiência demonstrou que não é através da eleição de representantes no Estado que uma transformação social profunda pode ocorrer. Mais uma vez, a crítica anarquista à via eleitoral e a sua estratégia de ação fora das instâncias parlamentares tem um espaço aberto para avançar. Neste contexto, as idéias anarquistas ressurgiram com uma determinada força. Em Goiás e no Brasil, o anarquismo reapareceu no meio estudantil e em movimentos sociais. A insatisfação com os partidos políticos tradicionais, com as estratégias autoritárias por um lado e a identificação com os princípios de independência e ação direta das lutas por outro é uma realidade. Daí a importância dos/as anarquistas se associarem para pensar na sua atuação social. Onde atuar, como atuar, em que atividade dar maior peso e maior força, sempre buscando escolher os melhores meios para avançar rumo a uma ruptura com o capitalismo. Entendemos que existe uma diversidade imensa de anarquismo. Cada uma das correntes se divergem em termos de fins e/ou meios. Seria muito bom se pudéssemos unir todos/as os/as anarquistas dentro de uma só organização. Porém, esta tarefa é muito difícil e acreditamos que não seria eficaz. Para começar, existem anarquistas que são contra a existência de qualquer organização e por eles/as mesmos/as não se disporiam a fazer parte de uma organização anarquista. Em segundo lugar, como, por exemplo, poderíamos reunir anarco-terroristas e anarco-pacifistas dentro de um mesmo grupo? Quando a organização fosse agir, a divergência intensa no interior dela levaria a uma incapacidade de tomar as mínimas decisões coletivas e mais uma vez nos dividiríamos em ações isoladas. Assim, é preciso termos uma comunhão de meios e fins de modo que os acordos assumidos livremente pelos/as militantes da organização possam fornecer uma afinidade capaz de dar eficácia à nossa luta e às nossas ações. Nesse sentido, a organização que propomos não é a organização anarquista, mas uma organização anarquista, que deve respeitar a diversidade do meio libertário e saber que cada um deve organizar-se de acordo com o que pense ser mais correto. Queremos a construção de uma sociedade sob novas bases, uma sociedade sem a exploração e a opressão do ser humano pelo ser humano. Queremos, portanto, eliminar o Estado, a propriedade privada e todos os valores culturais de dominação. Para isto, tomamos como alternativa o federalismo, a socialização dos meios de produção e a construção de valores baseados no respeito mútuo, na solidariedade, na plena igualdade na maior diversidade. Para destruirmos as estruturas de dominação e exploração e construirmos esta nova sociedade, será preciso lutar contra aqueles/as que detém o poder econômico e político. Nenhuma reforma gradual, nem uma evolução natural leva a esta transformação. É preciso uma revolução social para destruir as estruturas de exploração e construir a nova sociedade. Acreditamos que a organização anarquista tem como ação principal estimular a auto-organização popular. Ela é fundamental porque a emancipação popular deve ser obra do próprio povo e a construção de uma sociedade autogestionária deve vir da própria autogestão das lutas sociais. A organização anarquista deve, portanto, atuar nos movimentos sociais, sempre buscando movimentos mais combativos, horizontais, independentes, que tenham como método de luta a ação direta, atuando, portanto, fora das instâncias parlamentares, fortalecendo assim a consciência de classe e a solidariedade entre os/as oprimidos/as tanto local, nacional e internacionalmente. Outra tarefa da organização anarquista é a propaganda. A propaganda tem como objetivo fazer a crítica da sociedade atual e apresentar o programa anarquista (objetivos e meios) como uma alternativa de transformação da realidade. Ela, portanto, se centra na divulgação do pensamento e da prática anarquista e também das lutas sociais. O trabalho teórico é importante. Ele consiste no aprofundamento de uma análise da realidade e de um debate sobre as alternativas revolucionárias. Ele serve às duas tarefas anteriores: primeiro aos movimentos sociais, contribuindo no aprofundamento teórico desses movimentos, e no encontro de novas perspectivas para a ação popular; segundo à propaganda, pois é a partir do aprofundamento teórico que vamos construindo uma alternativa que será apresentada. Este trabalho teórico se torna possível devido a atuação social, fazendo com que a relação entre teoria e prática seja o elemento fundamental da construção do nosso programa. Pensamos que a organização anarquista deve se articular local, nacional e internacionalmente, visando a união de anarquistas e da luta social. Essa articulação possibilita a troca de experiências entre as organizações além de permitir uma discussão conjunta dos rumos necessários no processo de transformação da realidade. Esse manifesto é, portanto, a avaliação e um chamado de alguns/mas militantes anarquistas que apontaram alguns elementos que consideram importantes para a constituição de um programa de uma organização anarquista, representa os anseios de militantes que sentem a necessidade de organizar-se a partir destes pontos e de unir suas forças com aqueles que desejam fortalecer e construir esta organização. Não consideramos um documento fechado e acabado. A partir dos pontos aqui levantados, buscamos unir o maior número de forças para debatê-los, aprofundá-los e levantar novos pontos importantes para a constituição de uma organização anarquista no Estado de Goiás.

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