sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Definição de anarquia




Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "sem governo", isto
é, o estado de um povo sem uma autoridade constituída.
Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma
classe de pensadores, ou se tornasse a meta de um movimento, que hoje é um dos
fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra "anarquia" foi usada
universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada nesse
sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade.
Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e
não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro
significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito
de que o governo é uma necessidade na organização da vida social.
O homem, como todos os seres vivos, se adaptam às condições em que vive e
transmite, através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer
e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar,
o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A
liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por
séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão.
Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a
terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e
perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão.
Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o
nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a essas ataduras sua
habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia
muscular de seus membros.
Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu
patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são
necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que
pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o
preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos.

Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações
inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas
pernas não poderá caminhar, ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras
furiosamente e consideraria todos que tentassem tirá-las inimigo.
Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo
haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa
ausência de governo, também signifique ausência de ordem.
Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se
considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra
"república" (governo de muitos) era usada exatamente como "anarquia",
implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados
na linguagem popular de quase todos os países. Quando essa opinião mudar, e o
público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente
prejudicial, a palavra "anarquia", justamente por significar "sem governo" será o
mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos,
liberdade total com solidariedade total".
Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o
nome, por ser esse mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa
interpretação. O erro vem disso e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas
encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos.
Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as
pessoas têm sobre as funções do governo, ou o "Estado” com é chamado.
-Erico Malatesta in anarquia, 1907.

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